Casos de monitoramento do desenvolvimento e de avaliação de impacto são destaque em oficina

3ª oficina do ciclo 2015 da ID Local trouxe quatro iniciativas do Brasil e da América Latina em monitoramento do desenvolvimento local e de avaliação de impacto, selecionados a partir da chamada de casos 18/08/2015
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Local: FGV-EAESP
Data: 04 de agosto de 2015 Projeto: Iniciativa Desenvolvimento Local e Grandes Empreendimentos (ID Local) Participantes: Representantes de empresas membros e convidados da ID Local Expositores:
- IPS Comunidades: Bruno Bidóia (Natura), Luiz Soares (Coca-Cola), Fernanda Ferraz (consultora) e Graziela Castello (Ipsos);
- Juruti Sustentável/Indicadores de Juruti: Fabio Abdala (Alcoa);
- Evaluación Intermedia Del Programa Mejorando Nuestra Salud En El Sur De Lima – Familias Saludables: Cecilia Palomino e
Mercedes Chevez Arcaya (Asociación UNACEM);
- Mensuração de Impacto Sócio-ambiental da Coleta de Sementes Oleaginosas da Biodiversidade Brasileira: Fausto Makishi (USP) e Thiago Terada (Beraca). Texto: Bruno Toledo (GVces)

Na construção de ferramentas que apoiem as empresas na formulação e implementação de indicadores de monitoramento e de avaliação de impacto, um esforço importante é encontrar e sistematizar iniciativas e organizações que já estejam enfrentando os desafios desses temas no dia-a-dia de grandes empreendimentos e das comunidades que vivem no seu entorno. 

Por isso, um passo importante no processo coconstrutivo da iniciativa Desenvolvimento Local e Grandes Empreendimentos (ID Local), do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-EAESP (GVces), é justamente a seleção de casos. Conhecer a realidade de quem já vive isso na pele é crucial para construir ferramentas que tenham utilidade e aplicabilidade prática pelas empresas, com condições para efetivamente fazer a diferença em prol do desenvolvimento sustentável local.

As empresas membros de ID Local tiveram a oportunidade de conhecer os casos selecionados neste ano durante a 3ª oficina de ID Local, realizada no último dia 04 na FGV-SP. A equipe da ID Local selecionou quatro casos, dois de cada tema estratégico da agenda de trabalho neste ciclo 2015. Cada caso foi apresentado pelos seus próprios responsáveis durante a oficina, que abordaram os principais destaques, reflexões, aprendizados e perspectivas de seus projetos. 

CRITÉRIOS PARA SELEÇÃO DE CASOS

Organizada entre junho e julho passado, a chamada de casos reuniu iniciativas do Brasil e da América Latina, com o foco em experiências de monitoramento do desenvolvimento local e de processos de avaliação de intervenções empresariais no território.

No primeiro tema, os casos deveriam incluir ferramentas empresariais para a gestão interna de indicadores locais até ferramentas públicas e coletivas de monitoramento do de indicadores locais. No campo do monitoramento do desenvolvimento local, foram escolhidos o projeto Juruti Sustentável/Indicadores de Juruti (liderado pela Alcoa) e o Índice de Progresso Social/IPS Comunidades (iniciativa da Coca-Cola, Natura e IPSOS), ambos na região amazônica brasileira.

Já no segundo tema, os casos deveriam visar à identificação e avaliação dos impactos intencionados causados em um determinado grupo de beneficiários no entorno do empreendimento. No âmbito da avaliação de impacto, a ID Local escolheu o caso da mensuração de impacto socioambiental da coleta de sementes oleaginosas da biodiversidade brasileira (iniciativa da Beraca e USP) e o projeto “Evaluación Intermedia” do Programa Mejorando Nuestra Salud en el Sur de Lima - Familias Saludables (organizado pela Associação UNACEM no Peru). 

MONITORAMENTO DO DESENVOLVIMENTO LOCAL

O monitoramento realizado com metodologias participativas o torna reconhecido como ferramenta de apoio aos munícipes para entender a evolução do município e os instrumentaliza na formulação de propostas de melhoria da qualidade de vida da população. Fabio Abdalla, gerente de sustentabilidade da Alcoa, sobre o projeto Indicadores de Juruti

Acompanhar a evolução dos indicadores socioeconômicos de uma comunidade no contexto de um grande empreendimento é crucial para descobrir como essas populações estão absorvendo os efeitos diretos e indiretos do recebimento desse tipo de investimento em seu território. No entanto, mais do que acompanhar, o monitoramento estimula a população local a refletir sobre as dinâmicas do próprio desenvolvimento local, instrumentalizando as ferramentas de monitoramento para aprendizado e planejamento estratégico. Nesse sentido, o monitoramento do desenvolvimento local a partir de indicadores tem potencial importante de mobilização e empoderamento social e humano.

Dois exemplos disso são os casos apresentados durante a oficina de ID Local. O primeiro é bastante familiar para a FGV: o modelo de desenvolvimento local Juruti Sustentável (2007) e a construção dos Indicadores de Juruti, iniciativas que contaram com contribuição direta do GVces.  

Tendo como ponto de partida o modelo Juruti Sustentável, elaborado em parceria com o GVces e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), a Alcoa iniciou em 2008 a construção de indicadores de desenvolvimento local pautado na participação ampla e efetiva da sociedade local. O foco dessas contribuições era compreender as mudanças que estavam acontecendo nos arredores da planta de bauxita instalada pela Alcoa na região de Juruti/PA (ao lado) em 2006, ao mesmo tempo em que captava as expectativas positivas e negativas decorrentes dos cidadãos locais.

O processo de construção foi modelado e pilotado pelo GVces, a partir de consultas diretas a stakeholders e comunidades da região de Juruti entre 2008 e 2011. A partir de 2012, a governança dos indicadores começou a ser internalizada pela prefeitura municipal de Juruti, que continuou com o método de coleta de dados, práticas de leitura e discussão dos resultados, além da divulgação periódica dos dados.

Outro caso é a construção do Índice de Progresso Social/IPS Comunidades, uma iniciativa da Coca-Cola Brasil e da Natura em parceria com o Ipsos e a Social Progress Imperative, com o objetivo de acompanhar indicadores sociais e ambientais para mensurar a qualidade de vida no território médio Juruá (imagem ao lado), no estado do Amazonas.

O indicador foi desenvolvido e implementado a partir da metodologia do Índice de Progresso Social (IPS), idealizado pelo economista Michael Porter e entendido como “a capacidade da sociedade em satisfazer as necessidades humanas básicas, estabelecer as estruturas que garantam qualidade de vida aos cidadãos e dar oportunidades para que todos os indivíduos possam atingir seu potencial máximo” (Social Progress Index, 2013). 

Iniciado em 2014, a partir de um esforço conjunto da Coca-Cola, da Natura e de outros parceiros públicos e privados em nível local, o IPS Comunidades é pioneiro no mundo no uso de dados primários para mensuração do desenvolvimento socioambiental a nível local, a partir de três dimensões - necessidades humanas básicas (como segurança pessoal, moradia, alimentação e saneamento), fundamentos para o bem-estar (como acesso à informação e ao conhecimento básico, e saúde), e oportunidades (como direitos individuais, liberdades, tolerância e inclusão).

O território é uma arena de conflito, com atores e interesses em disputa. Quando fazemos uma iniciativa assim, não estamos atrás do consenso total entre esses atores, mas sim de uma linguagem comum, que evite iscos de ações paralelas e desconcertadas e que permita às pessoas a leitura do território a partir da mesma ferramenta. Bruno Bidoia, coordenador sênior de sustentabilidade da Natura, sobre o projeto IPS Comunidades 

AVALIAÇÃO DE IMPACTO

Mensurar impacto não é um problema trivial. Precisamos entender as diferenças de cada comunidade e as diferentes perspectivas para a mesma problemática. Nosso esforço é, considerando a heterogeneidade do Brasil, encontrar o que pode ser comum nas diferentes comunidades e criar um indicador que possa ser replicável para as empresas. Fausto Makishi, doutorando em engenharia dos alimentos na Universidade de São Paulo (USP) e participante do projeto de mensuração do impacto ambiental empreendido pela Beraca na Amazônia brasileira

Para as empresas, entender o impacto socioeconômico e ambiental é crucial para que elas tenham consciência do seu peso real sobre os territórios no qual elas estão inseridas. Isso é chave para que essas organizações possam atuar de forma mais responsável e construtiva em benefício da comunidade e de seu desenvolvimento social e econômico. Avaliar o impacto é importante para antecipar consequências futuras de decisões que estão sendo tomadas agora.

Um exemplo de iniciativa de avaliação de impacto apresentado durante a 3ª oficina de ID Local é o Programa Mejorando Nuestra Salud en el Sur de Lima – Familias Saludables, organizado pela Asociación UNACEM por el Desarrollo Sostenible em parceria com o escritório peruano da USAID e o Ministério da Saúde do Peru. 

Iniciado em 2010, este programa tem como objetivo contribuir para a melhoria das condições de saúde infantil das famílias do distrito de Villa María del Triunfo (imagem ao lado), na periferia da cidade de Lima. Para tanto, o programa prevê uma série de estratégias que enfocam tanto o desenvolvimento de liderança e gestão comunitária – onde as autoridades, líderes e agentes comunitários adquirem capacidade para liderar a gestão para melhorar a saúde de suas comunidades – quanto a comunicação e promoção de práticas e hábitos mais saudáveis para as famílias da região atendida.

Uma das etapas de intervenção do programa foi a avaliação intermediária (evaluación intermedia) realizada em 2013 com o objetivo de valorar o grau de avanço dos indicadores e sua relação com as atividades que se realizaram, avaliando assim a pertinência, a eficácia e a eficiência das estratégias realizadas em nível comunitário e familiar. Outro objetivo dessa etapa de avaliação de impacto foi estabelecer recomendações e estratégias para aperfeiçoar as intervenções do programa em suas etapas posteriores.

Os resultados dessas avaliações qualitativa e quantitativa serviram para comparar a evolução do quadro de saúde das comunidades, mensurar a incidência e o impacto das iniciativas sobre esse quadro comparativamente ao cenário pré-intervenção e orientar intervenções futuras, já visando a continuidade das ações após o final do programa por parte da própria comunidade e das autoridades envolvidas.

Outra iniciativa apresentada durante a oficina foi a mensuração de impacto socioambiental da coleta de sementes oleaginosas da biodiversidade brasileira, liderada pela Beraca em parceria com o Centro de Estudos Organizacionais (CORS) e o Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP). 

A proposta da Beraca com este projeto era avançar na mensuração dos impactos da exploração de sementes oleaginosas nas comunidades produtoras, e não apenas dos resultados econômicos. Para tanto, a empresa firmou parceria com a USP para construir uma plataforma de dados acadêmico-corporativa. 

Os dados foram coletados a partir de visitas de campo em comunidades no Pará e no Piauí, aonde pesquisadores da USP e da Beraca entrevistaram mais de 230 famílias em aspectos quantitativos (renda, gênero, escolaridade e consumo) e qualitativos (fontes de renda, estrutura organizacional e stakeholders). 

Um esforço particularmente desafiador para o projeto foi a construção de indicadores num cenário de diversidade de comunidades: ao mesmo tempo em que constrói algo replicável para a empresa, o projeto precisava levar em conta as particularidades e peculiaridades de cada comunidade. Para isso, ele contou com uma equipe multidisciplinar que, a partir desses dados, avaliou a eficiência social (geração de renda) e a eficiência ambiental (externalidade) da coleta de sementes oleaginosas.

Próximos passos

Nos próximos meses, as atividades da ID Local se voltam para os encontros do Grupo de Trabalho, que se reunirá em setembro e outubro para se debruçar no desenvolvimento das diretrizes propostas para o Ciclo 2015 para monitoramento do desenvolvimento e avaliação de impacto. 

No final de agosto, os membros da ID Local, junto com outras iniciativas empresariais do GVces – Plataforma Empresas pelo Clima (EPC), Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE), Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV), e Ciclo de Vida Aplicado (CiViA) – participarão da Jornada Empresarial "Terceira Margem", uma viagem de campo que permite aos participantes perceber as complexidades de desafios, interesses, papéis e ideias que permeiam assuntos-chave da sustentabilidade. 

Acompanhe as atividades do ciclo 2015 da iniciativa Desenvolvimento Local & Grandes Empreendimentos aqui.

Foto em destaque: Antonio Cruz/Agência Brasil
Fotos: Isabella Fumeiro/GVces
Figuras: ID Local, IPS Comunidades, e Asociación UNACEM por el Desarrollo Sostenible