Desenvolvimento local e grandes empreendimentos é foco de novo projeto

20/11/2012
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Em parceria com a ONG Childhood Brasil, primeiro ciclo tratará da questão da exploração sexual de crianças e adolescentes no contexto de grandes empreendimentos

GVces, 18/10/2012

Bruno Toledo

Construir uma articulação empresarial para reflexão, troca de experiências e a construção de propostas e diretrizes empresariais para desenvolvimento local no contexto de grandes empreendimentos. Esta é a proposta da mais nova iniciativa do GVces, o projeto Desenvolvimento Local & Grandes Empreendimentos, lançado em 15 de outubro no Salão Nobre da FGV-SP. Ao trabalhar junto com líderes e gestores empresariais, o projeto busca inserir o tema “desenvolvimento local” nas estratégias de negócio, por meio do diálogo, do estudo e da cocriação de propostas, metodologias e ferramentas de gestão local.

O primeiro ciclo do projeto (2012-2013) conta com apoio da Childhood Brasil e tem foco na proteção de crianças e adolescentes, e em como as empresas responsáveis por grandes empreendimentos podem contribuir para gerar oportunidades e assegurar os direitos desses grupos.

Ao final do ciclo, prevê-se a construção de dois produtos. O primeiro, um conjunto de diretrizes para padrão de desempenho (performance standard) voltadas à proteção de crianças e adolescentes frente à exploração sexual, no contexto de grandes empreendimentos. O segundo, uma metodologia para diagnóstico e monitoramento da situação da criança e do adolescente em regiões que recebem os grandes empreendimentos. 


Expectativas

O lançamento do projeto contou com a presença de Rosana Camargo de Arruda Botelho (presidente do Conselho Deliberativo da Childhood Brasil), Benedita Nascimento Pereira (secretária municipal de Assistência Social de Porto Velho/RO), Dalton Avancini (presidente da Construtora Camargo Corrêa), Franklin Feder (presidente da Alcoa América Latina), Angélica Moura Goulart (secretária nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), Dra. Maria Tereza Fleury (diretora da FGV/EAESP), além de Cecília Ferraz (coordenadora do Programa Desenvolvimento Local do GVces) e de Mario Monzoni (coordenador do GVces). Estes participantes discutiram suas diferentes experiências em desenvolvimento local e na proteção das crianças e adolescentes, e debateram as possibilidades e os desafios deste novo projeto.

Para o GVces, esta é uma oportunidade de compartilhar as experiências e os trabalhos desenvolvidos pelo Centro nos últimos anos, em matéria de desenvolvimento local. "Queremos dar escala aos aprendizados em campo, a tudo aquilo que desenvolvemos em Jirau [RO] e em Juruti [PA], unindo nossas experiências com as da Childhood e as das empresas parceiras do projeto", defende Cecília Ferraz, responsável pelo projeto no GVces. "Uma de nossas motivações é contribuir para que os grandes empreendimentos agreguem valor ao desenvolvimento local nos territórios onde se inserem, garantido também a proteção integral da infância e juventude e, em especial, enfrentando a exploração sexual". A ação prática proposta pelo projeto se alinha àquilo que o GVces trabalha há muito tempo: conciliar o estudo teórico com a resolução dos desafios da realidade. "Mais uma vez, o GVces desempenha um papel importante dentro do nosso esforço de combinar tradição de excelência em pesquisa com a prática aplicada", afirma Dra. Maria Tereza Fleury.

A visão do GVces coincide com a da Childhood Brasil, o que facilita a construção do primeiro ciclo do projeto. "Queremos reforçar a importância da causa da criança na questão do desenvolvimento sustentável", diz Rosana Camargo de Arruda Botelho. Para ela, mesmo num momento de desenvolvimento econômico para o país, podemos observar “com extremo desconforto” altos índices de vulnerabilidades de crianças e adolescentes no Brasil. “Neste cenário, um desafio enorme é enfrentar estas vulnerabilidades em regiões onde estão inseridos os canteiros de obras de grandes empreendimentos no interior do país”, completa Rosana.

Questão-chave para orientar o trabalho no ciclo 2012-2013 é como preparar os territórios que recebem grandes empreendimentos para garantir a proteção integral de crianças e de adolescentes. Para tanto, é fundamental que as empresas responsáveis por estes empreendimentos tenham consciência do desafio e do papel que elas possuem no seu enfrentamento. Por isso, o público alvo do projeto é exatamente os líderes e gestores empresariais brasileiros. “Esperamos construir uma rede de empresas, articuladas e engajadas em torno da questão da proteção integral da criança e do adolescente no contexto dos grandes empreendimentos no interior do Brasil, que incorporem esta preocupação em seu planejamento estratégico”, argumenta Cecília Ferraz.

Olhar local

O projeto lida com diversos desafios que refletem a dificuldade de promover um desenvolvimento local sustentável no interior do país. Na região amazônica, esta dificuldade é ainda maior, dado o "legado" social, cultural e histórico destas localidades – algo frequentemente negligenciado pelos responsáveis pelos empreendimentos, conforme aponta a secretária municipal de Assistência Social de Porto Velho. "As carências e especificidades culturais e ambientais de uma região como a Amazônia podem amplificar as tensões associadas à inserção de grandes empreendimentos", alertou Benedita Nascimento Pereira. "Geralmente, as estratégias de inserção destes empreendimentos são pensadas muito longe do local onde eles serão inseridos". 

De acordo com a secretária, para se produzir diagnósticos e estratégias efetivas para o empreendimento, é fundamental a perspectiva de quem vive nestas regiões. "O diagnóstico precisa levar em conta o olhar de quem vive na comunidade, não podemos fazer algo pensando de longe, planejando uma realidade da qual se está distante", completa Benedita.

Isto também significa atentar para as deficiências das comunidades, e tentar alinhar o seu enfrentamento com uma estratégia de promoção de um desenvolvimento local sustentável e harmônico. "Boas intenções sem diagnóstico geralmente apresentam baixa eficácia", aponta Dalton Avancini, presidente da Construtora Camargo Corrêa. "Quando chegamos a estas comunidades, lidamos com lacunas que em tese não deveriam existir, em áreas como segurança, educação e infraestrutura". 

Para Avancini, muitas empresas estão conscientes de que seus empreendimentos interferem no contexto social em que estão envolvidos – interferência que pode ser positiva, com a promoção do desenvolvimento, mas também negativa, com seus "efeitos colaterais".

Da percepção à ação

Para Franklin Feder, presidente da Alcoa, apesar de diversas lideranças empresariais e locais compartilharem a preocupação com a situação da criança e do adolescente, permanece o desafio de traduzir esta preocupação em ação prática e efetiva. "Temos também uma questão de timing, com o tempo restringindo a atenção dos empreendedores para aquilo que é prioritário”, comenta Feder. Ele considera ainda a ausência de diagnósticos sobre a questão no nível local e a falta de paradigmas e de modelos para lidar com o problema como dificuldades adicionais.

A proposta do projeto Desenvolvimento Local & Grandes Empreendimentos de construir ferramentas de gestão local e de monitoramento da situação das crianças e dos adolescentes é um primeiro passo em torno da formulação de diagnósticos e de modelos que possam ser efetivos na garantia dos direitos desses jovens cidadãos. No entanto, muitas questões importantes ainda precisam ser discutidas. "Faltam iniciativas que estimulem as empresas a contribuir para estas questões sociais, e esta é uma carência do próprio poder público, que não reconhece quem procura fazer diferente", aponta Dalton Avancini. 

Para Benedita Pereira, os atores envolvidos no empreendimento precisam pactuar as responsabilidades e as prioridades entre si. "Se definirmos conjuntamente os papéis e as prioridades de cada ator, o diálogo fica mais afetuoso e menos distante". Essa definição dos papéis e dos instrumentos precisa ser feita sob três eixos: apoio à família, geração de renda e acesso às políticas públicas. "Vulnerabilidades sociais que atingem a família têm relação direta com situações de violação dos direitos de crianças e adolescentes", argumenta a secretaria municipal de Porto Velho.

Esta pactuação depende da construção de uma agenda de convergência e de colaboração entre todos os atores, aponta Angélica Moura Goulart, secretária nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. "Precisamos consolidar um grande diálogo entre todos aqueles que possuem o compromisso e a responsabilidades com estas questões". Para ela é fundamental pensar em todo o tipo de vulnerabilidade que os jovens sofrem no contexto de grandes empreendimentos. "São diversos problemas que crianças e adolescentes passam em situações como esta e que precisam ser enfrentados, como o trabalho infantil, o tráfico de menores, e a delinquência juvenil".

Próximos passos

Para endereçar as discussões que envolvem desenvolvimento local no contexto de grandes empreendimentos e a situação de crianças e adolescentes, o novo projeto realiza ainda em 2012 sua primeira oficina. Para 2013, estão previstas atividades de formação, pesquisa e produção de conhecimento, com foco na construção conjunta de diretrizes, metodologias e ferramentas de gestão local. Também terão destaque ações de articulação e parcerias para troca de experiências e boas práticas entre as empresas e com especialistas, representantes de governo e organizações da sociedade civil. E iniciativas de mobilização e comunicação serão realizadas para disseminar as contribuições do projeto e garantir acesso público a estas informações. 

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