Empresas compartilham experiências e desafios na proteção integral de crianças e adolescentes no contexto de grandes empreendimentos

05/06/2013
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Na terceira oficina promovida pela IDLocal, empresas participantes trouxeram algumas de suas experiências e iniciativas já desenvolvidas sobre o tema no Brasil, e discutiram seus resultados e desafios com especialistas

GVces, 06/06/2013
Bruno Toledo

Depois de refletir sobre a proteção integral de crianças e adolescentes no contexto de grandes empreendimentos e sobre os papéis e responsabilidades das empresas nesse cenário, a Iniciativa Desenvolvimento Local e Grandes Empreendimentos (IDLocal) avançou no compartilhamento de experiências e na relfexão sobre as ações que as empresas podem desenvolver no sentido de garantir o respeito aos direitos desses jovens cidadãos em situação de vulnerabilidade. Em sua terceira oficina do Ciclo 2013, realizada no dia 15 de maio passado, a IDLocal convidou as empresas membro a apresentar as suas iniciativas e projetos na área de desenvolvimento local e proteção integral de crianças e adolescentes, e a discutir os caminhos, os resultados e os desafios advindos dessas experiências no Brasil. A discussão contou com a participação de Reinaldo Bulgarelli, consultor especializado na área da infância e diversidade, e de Gorete Vasconcelos, coordenadora de projetos da Childhood Brasil, organização parceria do GVces neste ciclo da IDLocal. Além de apresentar e discutir as experiências, os participantes da oficina também refletiram e aprofundaram nos resultados dos encontros dos grupos de trabalho (GT) de Metodologia e Diretrizes, na construção dos produtos finais esperados desse ciclo 2013 da iniciativa.

Desenvolvimento local, direitos humanos e proteção da criança e do adolescente: experiências

Nove grandes empresas brasileiras contribuíram com a oficina apresentando suas iniciativas e projetos voltados para o desenvolvimento local e para a defesa dos direitos humanos e da proteção da criança e do adolescente: Anglo American, Alcoa, AES, Votorantim, Natura, Alphaville, Grupo André Maggi, Camargo Corrêa, e BP Biocombustíveis. Dois desafios fundamentais permearam as apresentações dessas empresas: o engajamento e envolvimento efetivo da empresa, do poder público e da comunidade na elaboração, execução, acompanhamento e continuidade das ações voltadas para o desenvolvimento local e para a proteção dos direitos humanos; e a exploração da sinergia potencial entre diferentes empresas que atuam no mesmo território, e que, consequentemente, enfrentam vários problemas em comum.

Uma preocupação frequente que empresas apresentam quando estão instaladas numa região mais carente é a qualidade no relacionamento com a comunidade local. Geralmente, essas empresas acabam desempenhando diversas funções que deveriam ser do poder público, como manutenção de vias, serviços de saúde e de educação e mesmo moradia. Isso faz com que a população local enxergue a empresa como a responsável por serviços que deveriam ser realizados pelo Estado, e passe a exigir dela o provimento desses serviços. Esta postura reivindicatória acaba levando a um cenário de dependência da comunidade com relação ao empreendimento, o que – além de representar uma distorção de papéis e fragilizar as relações de cidadania no território - solapa qualquer possibilidade de desenvolvimento socioeconômico de longo prazo. 

A saída para essa armadilha é pensar no desenvolvimento local enquanto legado do empreendimento para este território, e isso passa necessariamente pelo envolvimento efetivo do poder público e da população local nas discussões, na formulação, na execução e na revisão das ações de desenvolvimento e de proteção e promoção dos direitos humanos. Este não é um processo isolado no tempo: o engajamento precisa acontecer desde os primeiros momentos do planejamento da inserção do empreendimento no território, até o pós-empreendimento, quando ele não estiver mais ativo ou presente no território em questão. Para Aron Belinky, coordenador da ID Local, muitas empresas já estão conscientes dessa necessidade de dialogar aberta e diretamente com o Estado e com a sociedade local. “Vemos em várias destas apresentações uma preocupação das empresas em buscar o engajamento do setor público e da sociedade civil, não se limitando a atenuar carências imediatas, mas ajudando a desenvolver um sistema de governança que empodere a população local”, apontou Aron. No entanto, a questão específica da criança e do adolescente ainda precisa ser abordada com mais propriedade dentro das estratégias de atuação existentes em matéria de desenvolvimento local: ainda são poucas as iniciativas voltadas especificamente quer para o combate ao abuso e exploração sexual de jovens, quer para o aumento da auto-estima e a geração de oportunidades para os jovens na região.

As empresas, assim como o poder público e a comunidade, precisam assimilar efetivamente a ideia de que é fundamental articular entre si a atuação em prol do desenvolvimento local e da proteção integral de crianças e adolescentes. “A grande obra não é responsável pela situação de vulnerabilidade nem pela exploração sexual, mas ela potencializa esses problemas no território”, explicou Gorete Vasconcelos, da Childhood Brasil. Segundo ela, as empresas acabam agindo de forma descompassada, sem articular as suas próprias ações, e repetindo uma lógica de sobreposição e fragmentação, muito criticada e comum no poder público. “O desenvolvimento econômico e social estão descompassados, e o desenvolvimento econômico, no final, acaba se impondo como a principal prioridade”, apontou Gorete.

Para Reinaldo Bulgarelli, ainda existem questões que precisam ser abordadas pelas empresas ao lidar com o impacto da sua atuação em determinado território, especialmente no que diz respeito à exploração sexual de crianças e adolescentes. "Essa questão não é simples, e passa por temas muito delicados, ainda tratados como tabu dentro e fora das empresas, como o dilema entre aceitar tacitamente ou regulamentara prostituição como profissão, e os limites que uma empresa precisa observar – ou não – no que tange à vida sexual ou comportamento social dos seus funcionários para além do ambiente de trabalho", disse Reinaldo. Outro ponto que precisa ser reforçado pelas empresas, segundo o consultor, é a questão do gênero nas equipes responsáveis pela construção e operação dos empreendimentos, especialmente a presença e o empoderamento da mulher num contexto tradicionalmente masculino.

Fotos: Luiza Xavier e Thiago Queiroz (GVces)

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